segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O PAI PEQUENO




Ele veio muito bem recomendado por um amigo comum.

- É gente boa, Glória, Pai Pequeno do meu terreiro - afirmou Roberto - e está sofrendo muito. Veja aí o que pode fazer por ele.

Quando eu penso em algum dignatário do Candomblé, vejo sempre uma figura imponente, orgulhosa, com o pescoço repleto de contas misteriosas e os braços marcados por cicatrizes ritualísticas. Mas aquele era a antítese do meu estereótipo.

Gilberto era baixinho, gordinho, vestido com total simplicidade. Tinha o ar perdido de quem procurava há muito tempo respostas que nunca chegavam. Em seus quarenta anos parecia colecionar tantos desgostos que meu coração se apertou ao vê-lo. Como se nada bastasse, não ostentava nenhuma guia e nem sequer veio acompanhado do séquito de espíritos que sempre chegam com esses filhos-de-santo e, não raro, deixam os meus cabelos arrepiados como um porco espinho e a sensação de que a sala foi invadida pelas torcidas de um Fla-Flu. E foi movida por uma profunda empatia por aquele homem tão frágil que iniciei o meu interrogatório:

- E então, qual é o motivo de sua visita?

- Na verdade, dona Glória, não é nada específico. Acho que a minha vida toda é um desastre. Há 15 anos venho buscando um caminho espiritual que me proporcione paz de espírito, um pouquinho de felicidade, mas até agora nada; só desgostos, solidão e traições.

Todos me diziam que eu tinha problemas de “santo” e por conta disso, procurei inúmeras casas. Cada um que mexia na minha “cabeça” dizia que o antecessor tinha feito alguma bobagem. Foi um sem-fim de obrigações, dias e dias de recolhimento, uma fortuna em “obrigações” e nada. A cada dia minha vida piora.

Agora estou num terreiro como Pai Pequeno, uma espécie de assessor da mãe-de-santo, pessoa séria e bondosa, mas nada acontece, dona Glória. Estou cada vez mais infeliz e solitário. Fico também questionando se estou mesmo no meu caminho espiritual. Acho que falta alguma coisa e, para falar a verdade, não gosto muito de cumprir com tanta rigidez as regras impostas pela religião.

Foi Mãe Renata que me recomendou fazer o mapa astral. Disse que, se a questão fosse astrológica, nenhum santo resolveria. Era carma mesmo, dos piores. A senhora é a minha última esperança. Preciso descobrir por que ninguém me ama, por que nenhum homem fica na minha vida mais do que uma semana (sim, ele é homossexual) e por que não me encaixo nessa posição de filho ou pai de santo. Afinal, dona Glória, qual é a minha missão?

- Ah, meu caro, seu eu soubesse...

Mas, olhando o mapa de Gilberto descobri algumas pistas importantes. Na dança dos astros vi que o nosso amigo estava, na verdade, destinado a uma vida de dedicação ao próximo. A sua bondade chegava a ser despropositada. Era um espírito magnífico aprisionado num corpo limitado e portador de uma quase irremediável “miopia emocional”. Quanto às questões do coração, havia sido contemplado com aspectos bastante desagradáveis.

- Você já foi roubado ou vítima de algum calote de seus namorados?

- Nem lhe conto. Já tive os maiores prejuízos. E não foi só de caras que eu conheci numa noite e levei para casa. “Casos” mais sérios também. Até mesmo parentes que me pediram ajuda, acabaram por trazer o maior transtorno. Já paguei dívidas que assumi como fiador, tive o meu apartamento saqueado e destruído pelo noivo da minha sobrinha, após uma estadia compulsória (o rapaz ficou sem ter onde morar) enfim, dessa lição já sou Mestre. E o pior de tudo é que ainda tenho pena dos outros e nem sempre resisto à tentação de ajuda-los.

- Pois é, Gilberto, você precisa evitar essas pessoas.

- Mas dona Glória, fico pensando que preciso fazer o bem, é a minha missão. E o pior é que nem acerto a quem nem aonde dirigir esse desejo. Até no hospital onde eu trabalho...

- Peraí, você trabalha em hospital?

- Ah, eu não lhe disse? Sou auxiliar de enfermagem. Trabalho em quatro hospitais sempre no CTI.

Desliguei o computador e abri as minhas cartas. Lá estava ele – O Eremita – bem na casa que simboliza a missão, o desafio do espírito, o que está oculto. Voilá! Estava explicado.

Olha, vocês que curtem astrologia por ser uma “ciência”, não imaginam o quanto o tarot lhe é superior quando o assunto é “humanidade”. Nenhum outro oráculo é capaz de tocar tão fundo o coração e a alma de alguém – benditas cartas.

Daí em diante iniciei um longo questionário sobre o tipo de trabalho que Gilberto fazia. Perguntei-lhe qual era a sua relação com os pacientes.

- Bem, nem sempre eu consigo fazer um contato. Sabe como é, gente no CTI está à beira da morte. Sou atento, quase obsessivo nos cuidados, mas quando posso, costumo tratar as pessoas com o maior otimismo, animando, brincando, até mesmo ralhando quando estão desanimadas. Gosto muito do que faço; não tenho nojo, medo ou desprezo como tantas vezes observo nos meus colegas e até mesmo nos médicos. À vezes, no silêncio das madrugadas fico sentado ali, olhando aquelas camas, ouvindo o barulho dos monitores e pensando como é estranho esse nosso trabalho. Sinto como eu seu fosse uma espécie de corretor, um agente entre a vida e a morte. É uma grande responsabilidade, dona Glória; qualquer movimento em falso, um erro bobo, pode significar a diferença entre o paciente sair ou ficar nessa vida. Mas, apesar dessas pequenas angústias, não consigo me imaginar fazendo outra coisa. Aliás, se mais tempo eu dispusesse, teria outros empregos em CTI.

E enquanto falava, Gilberto estampava no rosto uma expressão de beatitude; olhos brilhantes e bondosos e um pequeno sorriso de humildade. Intimamente eu ria com carinho daquela situação. O homem não percebia que a sua missão já estava em andamento. Nada havia a acrescentar.

- Acho que você não está se vendo, enxergando a sua realidade. Você já está no caminho, Gilberto e dos mais nobres. Você não precisa de terreiros, quartinhas, mãe ou pai-de-santo, obrigações, guias. Você é um legítimo sacerdote, um Cavaleiro da Luz.

E ele, lançando-me um olhar incrédulo.

- Ué, mas então por que eu não me encontro no amor? Por que a minha vida espiritual é tão confusa?

- É por que você está buscando o amor no lugar errado e entregando o seu espírito a pessoas inferiores a você. Nem todos vieram a Terra para encontrar um parceiro, casar. Isso é coisa imposta por uma sociedade hipócrita. Você mesmo encontra tanto amor em seu trabalho. Quem sabe se é desse amor que você precisa? Não, não estou aconselhando-o a se tornar um santo, ao contrário, mas os prazeres do sexo e da boa companhia também podem acontecer sem maiores compromissos, não é? Você já teve inúmeros exemplos negativos quando tentou aprofundar relacionamentos. Por que será? A vida está falando com você, amigo. Seja um bom ouvinte.

- Mas o que a senhora está dizendo, mudaria completamente a minha perspectiva de vida.

- E por que não mudá-la se você anda tão insatisfeito com a que tem?

- É, pode ser, devolveu-me Gilberto com um olhar pensativo. E sabe de uma coisa? Acho que vou me desfazer de todos esse badulaques de santo. Não suporto mais tanta pressão. A senhora acha que eu posso ser castigado?

- Se você acreditar nisso, sim, conclui, mas tenho certeza de que o castigo virá apenas como fruto de sua mente culpada e medrosa. Não seria um absurdo acreditar em deuses malvados e vingativos? Ora faça-me um favor!

- Não vai ser fácil deixar “cair essa ficha”, mas o meu coração está dizendo que é hora de dar um tempo e refletir sobre esse novo caminho. De qualquer maneira, vou precisar muito da senhora nesse processo. Posso contar com isso?

- Claro, Gilberto, só que o caminho não é novo, você foi quem o enxergou apenas agora e, como já dizia o bom e velho Marçal, sambista da melhor qualidade, hoje no “andar de cima”: “ QUEM NÃO SABE O QUE PROCURA, QUANDO ENCONTRA NÃO RECONHECE”.

Obs: Todos os nomes e locais citados são imaginários, visando a proteção das pessoas envolvidas nessa história real.

6 comentários:

Ana Lúcia Prôa disse...

Ai, que saudade de suas consultas... Sempre abrindo os olhos da gente!!!

Abençoada seja a sua missão com as cartas e os astros!

Beijos, querida!

Glória Britho disse...

Você nem tem razão para essa saudade. Sabe o quanto te amo e estou disponível para a sua visita.
Beijossssss!

Glória Britho disse...

Valéria Wright escreveu:
Somos assim mesmo,,, viveos uma busca frenética de algo que nao sabemos bem o que é qdo achamos estamos tao cegos pela busca que na verdade que nao enxergamos nada.

Pois Ze disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris de Sales Lobato disse...

Esta linda historia serve de reflexão e para a gente dar uma calibradinha nas nossas lentes ou mudar o nosso jeito de olhar! Obrigada Gloria. Beijo.

Anônimo disse...

É Glória, me identifiquei muito com essa estória. Fiz enfermagem, mas por motivos diversos não posso me dedicar a profissão. Mas durante os estágios me dediquei bastante. E minha vida é uma paulada atrás da outra, cirurgias e outros bichos.Mas não deixo esses problemas, inclusive amoroso, atrapalhar meu viver. Bjsss e obrigada por compartilhar essa estória.